Filosofia de Padaria
Uma reflexão depois de um simples comentário no caminho entre o balcão e o caixa de uma padaria.
PATERNIDADE SEM FILTROS


No último domingo (ou primeiro domingo do ano), eu acordei às 6h30, dei mamadeira para o Antônio, coloquei pra arrotar, dei mais um tempinho e, ali por volta das 7h20 da manhã, fui até a padaria comprar pão. Dia sim, dia não, essa é minha rotina. Afinal, Deus nos abençoou com o privilégio de morarmos a 100 metros de uma padaria muito boa.
O ponto é que, geralmente, vou com o Antônio. Eu gosto de caminhar com ele e, principalmente, de testemunhar ele observando o mundo. Nesse dia, não foi diferente. Coloquei ele no carrinho e parti com ele rumo à nossa padaria de cada dia.
Chegando lá, até então, nada de novo. Dei bom dia aos atendentes, os quais já sei o nome de quase todos, e segui rumo ao balcão dos pães. Pedi para a Pamela o de sempre: seis pãezinhos e quatro broas doces. Ela me entregou meu pedido e eu, um pouco desajeitado, levei rumo ao caixa meus dois pacotes com uma mão, enquanto, com a outra, guiava o carrinho do Antônio. Nesse pequeno percurso entre o balcão e o caixa é que aconteceu o fato motivador deste texto: uma jovem senhora, que devia ter ali pelos seus sessenta e poucos anos, acompanhada de um senhor, presumo que seu marido, fez um comentário com um sorriso no rosto:
“Isso sim é um pai! Buscando o pão na padaria e com o filhinho junto!”
E ela continuou:
“Com certeza o seu pai fazia isso e você aprendeu direitinho!”
Nesse momento, o comentário me pegou.
Não achei ofensivo de forma alguma. Inclusive, durante todos os segundos dessa interação, eu estava com um sorriso no rosto. Mas foi ali que eu tive um estalo. Como já falei em algum dos textos anteriores daqui, eu não tive meu pai presente e, definitivamente, não foi com ele que aprendi a sê-lo. Ainda assim, a relação que a senhora fez me entregou uma conclusão que eu jamais tinha parado para pensar: ainda que eu tenha decidido ser o melhor pai do mundo exatamente por não ter tido o meu, muitos outros pais decidem ser o melhor pai do mundo simplesmente porque o tiveram. Louco isso, né?
No final das contas, eu concluí que não é necessariamente o trauma que me deu a motivação para ser um pai fantástico, mas sim o meu contato com o significado de paternidade, que pode ser compreendido tanto com a presença quanto, no meu caso, com a ausência.
Eu sigo no processo de me entender como pai. Ainda tenho muito pela frente. Afinal, meu pequeno acabou de completar apenas quatro meses. Mas é bonito perceber o quanto esse lado da vida tem a oferecer e o quanto ele é capaz de ensinar coisas enormes em cenas tão pequenas.
Imagina: um comentário de uma desconhecida, entre o balcão e o caixa de uma padaria, foi capaz até de me aliviar um peso que eu nem sabia que carregava.
Através daquele comentário, eu consegui concluir que a ausência não me definiu, mas, sim, me ensinou. E quem me define sou eu mesmo, na decisão diária de ser não apenas um bom pai, mas o melhor pai do mundo para o Antônio.


